quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Amor de Perdição

A Religião dos Mártires do Amor

A novela sentimental Amor de Perdição insere-se na tradição peninsular dos Infernos dos Namorados. O amor assume no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende foros de autêntica religião. Mas é em Bernardim Ribeiro que se exprime pela primeira vez a impossibilidade completa do amor terreno e Menina e Moça é a novela sentimental onde se amalgamaram o amor e a tragédia.
Camilo, o grande intérprete romântico do amor, retoma a tradição dos “mártires do amor”, associando-lhes a ideia do Destino e da Morte. Trata-se de promover o amor à categoria do sagrado, do incomensurável com a razão e com as normas mais correntes. O desenvolvimento do enredo através dos “elos de uma cadeia fatal” segue um trilho profetizado por presságios terríficos e conformados por coincidências estranhas; à consumação do “sacrifício” assiste a própria natureza emocionada, como o frequente “sibilar do Nordeste”; dir-se-ia mesmo, nalguns casos, que cada amante não passa de mera causa ocasional da tragédia. O sofrimento, o remorso, a expiação do pecado de fruir na terra a glória de um amor ultraterreno é que resgata as almas deveras eleitas. Camilo esforça-se em recortar o trágico frémito de um amor em regra ilegal, por vezes sacrílego, mas “santificado e abençoado pelo anjo de Deus e de ambos”.

A Temática do Amor Contrariado

Esta novela é a história dos amores entre Simão Botelho e Teresa de Albuquerque. Mas esta relação é contrariada pelas famílias de ambos que se odeiam (“O magistrado e sua família eram odiosos ao pai de Teresa, por motivos de litígios…”).
Os dois amantes estão, assim, à partida, condenados ao infortúnio e ao sofrimento: “… não era o amor feliz, idílico e repousado que principalmente lhe interessava, mas o amor tenso e combativo, que vence obstáculos, se debate em angústias, teima, em último caso, na resistência passiva, e acaba por sublimar-se na sombra do convento ou nas torturas da morte lenta”.
O ódio implacável que domina as duas famílias é a força motora da acção, o grande obstáculo à consumação do amor entre Teresa e Simão. Os pais agem de acordo com um código de honra que os leva a colocar em primeiro lugar as divergências familiares em detrimento da felicidade dos filhos.

Face à prepotência paterna, Teresa revela uma força de carácter surpreendente. Ousa desafiar a autoridade do pai recusando casar-se com o primo Baltasar Coutinho. Teresa prefere assumir a sua desobediência, mesmo sujeitando-se às consequências: “… mate-me; mas não me force a casar com o meu primo. É escusada a violência porque eu não caso!...”
Perante a obstinação e firmeza da filha, Tadeu de Albuquerque não tem outra alternativa senão encarcerá-la num convento, concretizando-se, assim, a oposição à relação amorosa entre Teresa e Simão. O afastamento dos dois amantes contribui ainda mais para fortalecer o sentimento que os une. A ausência física sublima o amor e a comunicação começa a ser feita através de missivas que traduzem o desespero, a revolta mas, ao mesmo tempo, a vontade de vencer as contrariedades.
Mas, pouco a pouco, a esperança vai dando lugar à desilusão, ao desalento e à certeza de que o seu amor está votado à fatalidade do cumprimento de um destino – a morte.
Recorrente Nocturno
11ºCHLH

1 comentário:

Anónimo disse...

Uma obra inesquecível, profundamente dramática na sua vertente romântica ao seu mais alto nível!