quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Frei Luís de Sousa – Solução Trágica Para o Texto de Almeida Garrett



O Frei Luís de Sousa «tinha, [...] para Teófilo Braga, uma precisa função: no momento em que Portugal, em fase de involução política, estava corrompendo os frutos da revolução de 1836, o acto de revolta de um patriota como Manuel de Sousa teria podido reacender a chama revolucionária no coração dos Portugueses.
É uma interpretação, todavia, que permanece isolada. Depois dela o interesse desloca-se cada vez mais para o problema moral que o duplo casamento de D. Madalena impõe às consciências católicas: um problema cuja solução, para Garrett, não se pode dar senão nos moldes de uma verdadeira catástrofe de tragédia grega:

"A catastrophe é um duplo e tremendo suicídio; mas não se obra pelo punhal ou pelo veneno: foram duas mortalhas que cahiram sobre dois cadaveres vivos: - jazem na paz do mosteiro, o sino dobra por elles: morreram para o mundo, mas vão esperar ao pé da Cruz que Deus os chame quando fôr a sua hora..."
(Memória ao Conservatório Real)

Há revolta no coração de Garrett ao indicar esta solução «cristã»? Ou ele participa da aceitação dos seus heróis? Num agudo estudo histórico-psicológico sobre a origem do drama, Costa Pimpão lança luz sobre os bastidores da crónica de que pode ter vindo a Garrett a sugestão para a escolha do tema. Para além das pistas indicadas pelo próprio autor, fontes próximas como o Cativo de Fez de Silva Abranches, ou fontes remotas como a representação sob a «tenda de lona no areal da Póvoa de Varzim» em que Teófilo Braga via romanticamente a repetição daquele processo de inspiração «popular» que tinha sugerido a Goethe o seu Faust, o estudioso português aponta o caso pessoal de Garrett que naquele mesmo período tinha sofrido uma das dores mais torturantes da sua vida: a morte de Adelaide Pastor, sua segunda mulher - ilegítima -, mãe daquela Maria Adelaide que, precisamente pela sua posição irregular, teria constituído o espinho dos últimos anos de vida do pai. desejoso, por ela, de reconhecimentos «oficiais», como daquele título de Visconde destinado a proteger, como um escudo de respeitabilidade, a pobre inocente dos ataques de uma sociedade hipócrita e cruel. Sublinhando embora a «significação católica» da concepção garrettiana, Costa Pimpão nota que Garrett não é da mesma massa dos seus heróis, que não aceita, mas se revolta, e que na tragédia de Manuel e Madalena procura, na piedade de um público que não pode ficar insensível perante a tragédia que a solução católica implica, piedade e compreensão para o seu próprio caso, resolvido, aliás, de maneira bem diversa da que foi escolhida por Frei Luís de Sousa. [...]
Garrett, na sua praxis pessoal, e talvez no exemplum catastrófico que propõe ao seu público, parece seguir mais uma ética «cortês» do que uma ética «católica». Que sugeria a ética cortês como solução do caso amoroso da «mulher com dois maridos»? No seu tratado De Amore composto provavelmente no final do século XII na Corte de Maria de Champagne, Andreas Capellanus inclui exactamente um «caso» que parece o protótipo daquele que mais tarde dará origem à tragédia de Manuel e Madalena:

Cuiusdam enim mulieris nobilis amator quum in regiam esset expeditionem profectus, falsis inter omnes ferebatur rumoribus, ipsum decessisse; que percepto et subtiliter inquisito consuctam et rationabilem gessit tristitiam, et quam pro mortuis credidit debitam amorosis; deinde alii se copulavit amori. Post modica vere temporis elapsa curricula revertitur primus amator et solitos sibi quaerit exhiberi amplexus...



(Esta e a seguinte versões em português não vêm no original: «Um amante nobre de qualquer mulher, desde que tivesse partido para uma expedição régia, difundia-se entre as pessoas através de falsos rumores que ele morrera; o que, conhecido e subtilmente inquirido, gerava a costumada e racional tristeza a qual creio ser devida aos mortos do amor: em seguida unia-se a outro amor; depois, decorrido um pequeno lapso de tempo, voltava o primeiro amado e procurava que os carinhos habituais lhe fossem retribuidos.» [Trad. do Dr. António Torres])

O caso que as Cruzadas tornavam de grande actualidade na Europa do século XIII é, nas suas premissas, semelhante ao nosso: não nas suas conclusões, já que a ética encarada por Manuel de Sousa Coutinho exclui o debate sobre qual dos dois maridos a mulher deve amar. O problema nem sequer se põe: se o segundo vínculo não existe, visto já não ser consagrado pelo matrimónio, também o primeiro foi dissolvido, contaminado, pelo segundo amor. E não há outra solução além da morte: a morte para o século, na expectativa de que Deus, na sua misericórdia, queira conceder também a segunda, a definitiva. Solução cruel, trágica, mas na sua inelutabilidade mais lógica, mais moral, mesmo para quem não seja católico, do que a indicada, por exemplo, por um código civil para o qual a «solução», pois que o segundo casamento não existe, é o regresso puro e simples ao primeiro, ao statu quo.
Garrett não podia aceitar esta solução. Na praxis pessoal ele tinha escolhido a solução da ética cortês, isto é, ao dever tinha anteposto o amor, exactamente como sancionava o cavaleiro cortês de Andreas Capellanus:

... si [mulier] viderit, suam voluntatem nullius coactionis sentire fomenta, et, exstinctum adversus amantem primum sPiritum reviviscere non posse, cognoverit, amantem potest servare secundum. Nam dicere, quod ad primum debeat praecise redire, nisi hoc faciat, amoris compunctione suasa, esset asserere turpe et amoris praecepta fraudare... (')

(«... se [a mulher] verificar que a sua vontade não sentiu o lenitivo de qualquer coacção e reconhecer que não pode fazer renascer o amor extinto para com o primeiro amado, pode ser fiel ao segundo amado. Com efeito, dizer categoricamente que deve voltar ao primeiro amado, a não ser que o faça persuadida pela amargura do amor, seria aplicar torpemente e defraudar os preceitos do amor.» [Id. Id.])

O caso de Madalena de Vilhena e de Manuel de Sousa Coutinho era sem dúvida alguma mais complexo: e não apenas pela indissolubilidade do vínculo matrimonial, pelo seu carácter de sacramento; mas pela presença da filha ilegítima que do caso era a verdadeira inocente vítima.
O final do drama garrettiano, com aquela morte em cena aberta, pareceu não raro por demais truculento, excessiva e clamorosamente romântico.
Mas não tinha razão: o sacrifício era plenamente justificado tanto no plano lógico como no teatral. Maria de Noronha devia desaparecer porque depois da morte (se a morte civil equivale à morte real) dos seus pais, a filha ilegítima de um matrimónio inexistente já não tinha o seu lugar no mundo, já não existia, se é que algum dia tinha existido.»

Luciana Stegagno Picchio, Quatro Lições Sobre o Teatro Português, «Estudos Italianos em Portugal», 1967 [IV - O Frei Luis de Sousa de Garrett: tentativa de Interpretação de várias Interpretações].

1 comentário:

Anónimo disse...

Almeida Garrett nunca deixa de nos surpreender. Consegue, ao mesmo tempo, respeitar o objectivo do Romantismo e mostrar como se pode pertencer a uma época litrerário sem deixar de se ser original!