sábado, 4 de abril de 2009

Amor

Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, no seu Livro do Desassossego, afirmou: “Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos […]”.

Na verdade, temos o direito a ser felizes, quando a Felicidade é partilhada e temos o direito a sorrir sem precisarmos de nada dizer. Devemos ser nós próprios sem sermos obrigados a ser os outros e, só alcançaremos a verdadeira realização, quando olharmos para a nossa alma e gostarmos do que vemos, mesmo com todas as cicatrizes da vida.
Não há braços abertos, quando estes apertam demais; não existe Amor, quando sentimos apenas medo e dor; não há lealdade quando nos exigem silêncio forçado.
As relações que nos enriquecem são só aquelas que nos permitem a liberdade, a troca de ideias, experiências e sonhos e não as que nos envolvem com correntes e grades de mágoa e sofrimento. Não nos merece aquele que quer moldar o nosso espírito, vergando-nos à sua imagem, cercando-nos os horizontes, eliminando os espaços abertos e cortando-nos as asas da independência: não pertencemos a ninguém nem ninguém nos pertence!
Surgimos da noite, da escuridão, cheios de dúvidas e medos, convencidos de que construir relacionamentos sem Amor para diminuir as trevas é uma solução para o vazio que nos assola como um fantasma. Mas nada é mais triste do que ser apenas uma concha vazia a decorar a praia alheia, movimentando-se porque a água a leva. Podemos não controlar as marés da vida, mas temos a liberdade de decidir se nos queremos deixar ir.
A ajuda mais preciosa é a que vem da nossa alma e, se, no início, não conseguimos correr, começamos por andar. Se não há ninguém que nos ampare na nossa jornada, é porque, talvez, não tenhamos a capacidade de ver para além da nossa dor e do nosso abandono. Procurar esse alguém é importante; procurar esse alguém que nos aceite e nos acolha sem egoísmos é essencial!
Não devemos desistir só porque as lágrimas cobrem o nosso rosto: as lágrimas que derramamos não são provas de fraqueza, mas de coragem e um exemplo maior de que ainda somos livres para chorar.
Para que alguém goste de nós, só tem de compreender que o Amor se demonstra pela aceitação, não só do nosso valor, mas também das nossas falhas. E, embora tenhamos necessidade de companhia, carinho e reconhecimento, a nossa existência não depende exclusivamente dos outros, mas, sim, e principalmente, da nossa capacidade de termos chegado até aqui!

Dra Sónia Cristina Vasconcelos da Costa Pedro

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