quarta-feira, 1 de abril de 2009

"Os Maias" de Eça de Queirós

História da Família Maia
A história da família Maia foi o pretexto que o autor encontrou para caracterizar três gerações que sem encontram delineadas na obra, o que lhe permite traçar uma linha temporal cronológica, marcada por mutações sucessivas.

Deste modo, são-nos apresentadas:
- Primeira Geração – abrange a época da reacção do liberalismo ao absolutismo vigente (lutas entre liberais e absolutistas) e, na obra, corresponde à juventude de Afonso da Maia (avô de Carlos);
- Segunda Geração – é a geração ultra-romântica, representativa da instauração do liberalismo e consequentes contradições internas, centralizada na figura de Pedro (pais de Carlos) e sobrevivendo na figura de Tomás de Alencar;
- Terceira Geração – corresponde à de Portugal da Regeneração, aquela em que Carlos se insere, dominada pelo sentimento de decadência das esperanças liberais (representadas por Carlos) Esta geração continua os ideais da primeira geração romântica, pela sua necessidade de renovação da sociedade portuguesa e pelo papel que é atribuído à arte enquanto elemento dinamizador dessa regeneração, após um período de estagnação.
A obra apresenta, como toda a narrativa, uma introdução, que faculta a apresentação de Afonso da Maia, como factor de unidade, e permite situar no tempo e no espaço o início da acção; um desenvolvimento, onde, depois de, em traços breves, dar conta do passado de Afonso, de Pedro e de Carlos, desdobra os principais acontecimentos; o desenlace surge com a viagem de Carlos, após a morte do avô, e o seu regresso a Lisboa. O plano da intriga apresenta uma acção secundária, que envolve Pedro e Maria Monforte, e uma acção principal, centrada na relação entre Carlos e Maria Eduarda.
● Inicia-se o romance por um conjunto de dados introdutórios à história da época abrangida pela terceira geração. É cortado o primeiro capítulo pela história de Afonso que, continuando, cede, no II capítulo, à aventura de Pedro, para dar lugar (excepto em circunstâncias esporádicas), a partir do III capítulo, à personagem de Carlos.

1º - Caetano da Maia " À volta de Caetano da Maia circulam a esposa, Frei Jerónimo da Conceição, seu confessor, a inglesa Fanny. Pertencem ainda ao mesmo núcleo as tristonhas primas Cunhas, o brigadeiro Sena e a já quase mítica figura de um D. Miguel, “Messias forte e restaurador providencial”.
2º - Afonso da Maia " Afonso, por seu lado, dará origem a diversos grupos diferentes. Integrado, inicialmente, neste universo absolutista a que opõe, vemo-lo, posteriormente, colocado na rica sociedade inglesa, casado com D. Maria Eduarda Runa, lutando com os padres que dominaram o espírito adoentado da esposa e lhe arruínam a educação do filho. Mais tarde, já na parte do livro dominada por Carlos, rodeia-se de um grupo de fiéis amigos que constituem, simultaneamente, a continuidade do seu universo: Vilaça, a condessa Runa, o abade, D. Ana Silveira, D. Eugénia, o doutor delegado – estes na fase da infância de Carlos; o conde Steibroken, o marquês de Souselas, D. Diogo, o Sequeira, já no Ramalhete, em Lisboa.
3º - Pedro da Maia " Pedro acompanha um grupo de românticos estroinas em que sobressai Alencar, poeta lírico, até à sua paixão por Maria Monforte que, com o casamento, lhe cria um ambiente de luxo e festa onde vagueia a juventude elegante de então.
4º - Carlos da Maia " Carlos, participando do grupo originado à roda do Avô, faz surgir novos elementos: Ega, Eusebiozinho, conde e condessa de Gouvarinho, Raquel e Cohen, Teles da Gama, Palma, Dâmaso, Taveira, Cruges e muitos outros. Deste conjunto evidencia-se, no romance, a personagem de Maria Eduarda.
A vida de Caetano constitui um estado de perfeito equilíbrio segundo os padrões do absolutismo vigente. Tal situação sofre uma ruptura pela adesão de Afonso às ideias liberais.
Com o regresso de Afonso a Benfica e o advento dos novos tempos, restaura-se a harmonia. Esta será novamente quebrada pela ligação de Pedro com Maria Monforte. Paradoxalmente, a fuga de Maria e o regresso de Pedro ao lar paterno reinicia o retorno à fase inicial. A situação de estabilidade instala-se com a morte de Pedro e a ligação afectiva entre Carlos e o Avô.
Inicia-se, neste momento, o romance propriamente dito. A dada altura, a paixão de Carlos por Maria Eduarda vai constituir nova destruição do equilíbrio, sendo este recuperado no final do romance com a reintegração de Carlos numa vida monotonamente estável, posterior à morte de Afonso e à forçosa separação de Maria.

Pode afirmar-se, então, que a obra se resume a esta constante passagem de um estado de equilíbrio a uma fase de desequilíbrio, com posterior recuperação do primeiro. É evidente que cada novo estádio de equilíbrio não é absolutamente idêntico ao anterior que tinha sido destruído.
Profª Sónia Pedro

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