domingo, 3 de maio de 2009

Leitura transversal da velhice e solidão de ontem e de hoje em terras de Trás–os–Montes – retratos/imagens escritas seleccionadas

1.“O velho, corcovado, arrimado à bengala de freixo …vinha procurar companhia….”

A solidão partilhada, mais fácil em outros tempos, quando a desertificação ameaçava menos as nossas terras; a fadiga e o desamparo, os mesmos sinais de ontem e hoje a que não prestamos atenção ou preferimos, por vezes, entreter nos lares, já que a vida a isso obriga ou porque a própria velhice nos assusta e amedronta.

2.“A samarra … sebenta pelo uso, capote para o Inverno …O colete cinzento sobre a camisa sem colarinho, refegada e suja, cingia-lhe o descarnado pescoço…”
“A pele da cara era queimada, curtida pelos ares do campo. (…) “

A solidão transparece na samarra e no resto das roupas. A falta de higiene motivada pela ausência de motivação ou esperança, e o desamparo de uma sopa quente ou de um mimo de quem nos ama e cuida de nós desenha-se no pescoço descarnado de quem muito trabalhou de sol a sol.
Hoje há cuidados, há amparo, há bom trato!
Então, como explicar o olhar de solidão?!

3.“A Lucinda, a companheira de sempre, que já tinha partido, nunca ultrapassou muito bem. (…)”
“Lia – se - lhe ternura no olhar.”
“ O pior eram as noites. Comia o caldo, …contou sempre com o saber da Lucinda. Nos dias da lavoura, que eram quase todos, vinha sempre na frente estafada, (…) e quando chegava a casa já a panela de ferro, atiçada pela fogueira crepitante, cozia umas couves que esborrachava com batatas e para adubar um naco de toucinho que tinha ido cortar à salgadeira. (…)”
“ Era uma santa….”
“Toda a vida habituado à Lucinda e agora ter que partilhar tudo com outros, não!”

Ontem, tal como hoje, a companheira é a alma do homem da lavoura. Restam poucos.
Há idosos sem companheira e o inverso também.
Era o casamento, com amor ou sem ele, mas que crescia com a habituação. E se essa habituação não é o afecto maior, Deus nos valha que o mundo muito mudou?!!!
4. “Noutros tempos era fácil, agora, tudo é lento, os movimentos, as horas, a vida.”
“ Agora que olhava para trás, lá longe, lembrava-se do casamento com a Lucinda, do tempo de tropa, difícil, mas diferente e depois… depois não se lembrava de mais nada. A vida tinha sido uma sucessão de dias, lavrando, semeando, colhendo.”
“Viu partir muitos, mas ele nunca se entusiasmou com a ideia.”
“Doía-lhe a alma quando via as terras cheias de ervedo.”

Dizem os mais velhos e menos novos que o Tempo parecia correr mais devagar. Havia tempo para conversar, brincar, trepar aos ninhos, ir aos riachos, beber na fonte, …
Noutros tempos, havia muito trabalho a preencher todas as horas e havia também horas e horas de lazer ao sol e ao soalheiro.
Havia tempo para os filhos! Havia tempo para os pais! Havia tempo para correr atrás das lagartixas… correr os canados…apanhar perdizes… ouvir histórias de encantar e amedrontar no largo da aldeia ou na partida da amêndoa….
Hoje há tempo?! Se alguém o achar, por favor, ajude-me a encontrar!!!

5. “ “Na sua mente formava-se a procissão da Quinta – feira Santa. (…) Depois alternava a banda e tocava umas modinhas tão tristinhas, tão tristinhas que emocionava toda a gente.”

“O Padre Abel puxava pelos dotes de orador. Olhai!, a dor de Maria. Olhai!.... e o mulherio…desatava numa choradeira que só parava depois de recolher à igreja e desandar em direcção a casa, a deitar a s contas à ceia , … sem carne de porco, para não cair em pecado.”

No tempo do Velho, a Semana Santa era vivida com paixão e muito sentimento. As dores de Maria eram exaltadas pelo Padre ou o vigário. O povo privava-se de quase tudo, mas nesses dias havia a penitência, carne de porco nem pensar! Era preciso expiar os pecados e outras coisas da natureza….
Hoje, sabemos que vivemos tempos que antecedem a Páscoa, a Semana Santa avizinha-se. Há recomendações para que mudemos de vida, possamos fazer sacrifícios e há também as procissões e os cânticos.Mas não me lembro de sacrifícios! Alguém se esqueceu de passar a palavra!....
A propósito diz António Sá Gué no seu Blogue “Palavras ao vento”:

“Que nenhum livro fique por escrever;
Nenhuma palavra por dizer;
Nada fique por descobrir.
Que nunca se encubra a verdade.”
(Excerto publicado em 21 de Março de 2009)

Nós, os mais jovens, queremos a verdade!
Acreditem que precisamos de testemunhos, de sabedoria, de conhecer experiências!
Será que os adultos andam demasiado distraídos?!
Será que os pais ficaram sem tempo para nos contarem ao ouvido, antes de deitar “Era uma vez…”
6. “Habitualmente os vizinhos aquela hora da tarde, vinham fazer-lhe companhia, mas hoje ninguém apareceu.”
“Até era bom que os vizinhos não aparecessem – não queria que ninguém percebesse. Queria partir!”
“O Padre Abel que fizesse o que entendesse, podia enterrá-lo fora do cemitério.”
“O sol apagava-se atrás dos montes. Sentiu frio. (…) Foi para dentro.

Deitou os olhos à corda pendurada atrás da porta que dava apara a loja, puxou um banco, esmou com o olhar a altura da viga do sobrado.”

A solidão de ontem e de hoje é a mesma, o desamparo, a falta de sonhos e companhia para quem espera sentado à soleira da porta por um “Olá!”, “Bom dia! Como está?!”
Em todos os tempos a dor pode ser levada ao limite. A corda e as vigas do sobrado estão a cada esquina e em muitos olhares cansados de viver.
“E ele há horas do Diacho!”,costumam assim dizer os mais velhos.
Para o Velho do nosso conto foi a fuga para outro lugar, talvez para junto da sua Lucinda,
Talvez para o seu regaço, talvez para as memórias de um tempo em que se conversaram, casaram e se habituaram para todo o sempre.
Que lhe importaria onde iria ser sepultado?! Fora do cemitério como é preceito da Igreja, quando alguém se antecede à ordem divina?! Que importava?!
A paz, a companhia da sua Lucinda, o fim da dor, a liberdade de ser rejuvenesceram-lhe a alma… Pelo menos, assim o pensara.
Quem somos nós para duvidar?
Hoje também se morre de solidão! É verdade! Também se morre de solidão! E hoje na era das novas Tecnologias e Novos saberes e novas oportunidades, enfim, num mundo que pensamos ser o melhor, também hoje, como já disse, há velhos de samarra. Pescoço descarnado que olham as cordas e as vigas do sobrado.

É o cansaço da velhice e, quem sabe, a sabedoria dos que perceberam que já nem tempo há para

ENVELHECER…. Nem mesmo …… Para MORRER!!!
Mélanie Gonçalves, 11.ºCHLH

1 comentário:

António Sá Gué disse...

Ah!... como enternece esta análise feita por uma jovem. Não há geração rasca, hoje tenho a certeza disso.
Abraço!